segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Sem espinhas

Seriedade, compromisso e empenho num jogo que convidava a algum relaxamento? Check.
Oportunidade para lançar uma equipa alternativa e alguns jovens? Check.
Golos bonitos e bom futebol? Check. 
Prémio Puskas para Hernâni? Não, porque esse já está reservado para Loures. 

Tudo o que se podia pedir neste contexto de Taça de Portugal foi cumprido com distinção, a poucos dias da deslocação à Alemanha, onde o Leipzig tem como mais recente cartão de visita uma vitória em Dortmund. Promete.

Aboubakar (+) - Os regulamentos que condicionaram a composição do 11 para a partida eram não só desconhecidos por grande parte dos adeptos como pela própria imprensa, mas Sérgio Conceição fez questão de os lembrar. Aboubakar teve que jogar, num jogo em que o FC Porto acabaria sempre por vencer, com menor ou menor dificuldade. Aboubakar, em dois minutos, assegurou que a equipa o faria com menor dificuldade, com duas boas finalizações, em particular o golpe de cabeça.

Diogo Dalot (+) - Este jogo não foi um teste à qualidade de Diogo Dalot, pois a verdade é que qualquer adversário do FC Porto B na Segunda Liga tem mais qualidade do que este Lusitano. Mas na sua estreia oficial pela equipa principal foi desinibido, entendeu-se bem com Brahimi do lado esquerdo (embora tenha feito toda a formação do lado direito) e arrancou um cruzamento perfeito para a cabeça de Aboubakar. Está, há muito, a um nível muito acima do da sua geração e o FC Porto pode ter aquilo um lateral para muitas épocas - embora a SAD não tenha historial de manter os talentos da formação no clube. 



O envolvimento da equipa (+) - Muitos destes jogadores estavam a jogar juntos pela primeira vez, mas foi visível a existência de rotinas e jogadas-padrão. Sérgio Conceição sabe que não tem um plantel vasto, mas não há elemento que não esteja totalmente integrado no colectivo da equipa, o que permite surpresas como ver Sérgio Oliveira saltar para a titularidade sem um minuto de jogo. E entre alguns rasgos de criatividade e minutos em que pareciam ausentes do jogo, Otávio e Hernâni acabaram por mostrar serviço e contribuir com dois bons golos. 

Segue-se a Champions. Entretanto a SAD já divulgou o Relatório e Contas da época passada. A análise habitual d'O Tribunal do Dragão será publicada dentro de alguns dias.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Dois pontos perdidos?

O FC Porto queria sair líder de Alvalade: e saiu. O Sporting queria passar para o primeiro lugar: e falhou o seu objetivo. Basta isto para se concluir que o FC Porto saiu do clássico por cima do adversário. Com um sabor agridoce, pois foi a melhor equipa e fez, sobretudo na primeira parte, os melhores 45 minutos que o FC Porto fez em Alvalade desde o ano da última vitória, em 2008. Mas sair do estádio mais difícil para o FC Porto em Portugal invicto, líder da I Liga, com mais soluções no plantel e a jogar bom futebol só pode ser encarado como muito positivo.

Não, Sérgio, não foram dois pontos perdidos (embora se entenda e subscreva a ambição): foi confiança ganha, soluções ganhas, equipa mais forte e coesa, e ao contrário do que aconteceu em 2014-15, época na qual o FC Porto perdeu a liderança logo após a ter recuperado, desta feita a equipa dominou o Sporting e agarrou-se ao primeiro lugar com todo o mérito. Vila do Conde, Braga e Alvalade já lá vão, três deslocações a casa de equipas dos seis primeiros lugares da tabela e com ambições europeias. Perfeito. 




A primeira parte (+) - Não fosse a eficácia e teriam sido 45 minutos perfeitos, nos quais o FC Porto reduziu o Sporting a um único lance de algum perigo, o cabeceamento de William Carvalho (e mesmo no segundo tempo, o lance de maior aflição foi um remate de Bruno Fernandes para as couves). O FC Porto ganhou o meio-campo, teve sempre profundidade, foi capaz de ser criativo (Brahimi e Aboubakar bem a criar, mas faltou pragmatismo e sentido prático na hora de rematar) e obrigou o Sporting a correr muito, muito mais. Taticamente, tudo saiu bem ao FC Porto, que controlou o jogo com e sem bola. Naquele que foi o primeiro clássico de Sérgio Conceição, meteu no bolso Jorge Jesus.

Outra vez, Brahimi (+) - E novidades? Perdeu gás na segunda parte (assim como toda a equipa), mas encheu o campo na primeira parte. Saíram dos seus pés as principais jogadas de perigo, assegurou que Piccini não dormiu bem na última noite e foi quem melhor soube aproveitar o espaço entre linhas. Tem que apostar mais no remate à entrada da grande área, pois quem ganha espaço e se enquadra com a baliza como Brahimi não pode estar sempre à espera que apareça mais um jogador para fintar. À margem desse pormenor, começa este mês como acabou o último: o melhor em campo.


Os três pilares (+) - Casillas só teve que fazer uma defesa em todo o jogo e o Sporting foi reduzido a cinco tentativas de remate. A equipa defendeu bem em bloco, mas há que realçar a importância de Marcano, Felipe e Danilo Pereira. Ganharam todos os lances aéreos nos últimos 25 metros, fizeram apenas 3 faltas e bloquearam 29 tentativas de ataque do Sporting no último terço, entre cortes e alívios. Defensivamente, tudo correu à equipa, também com um papel importante de Herrera e Sérgio Oliveira em manter o meio-campo composto. Casillas tocou na bola metade das vezes de Rui Patrício (22-44), o que diz tudo de uma noite que, num clássico, não costuma ser tão tranquila para os guarda-redes. 




Pormenores (-) - A hesitação que levou ora Brahimi, ora Aboubakar a perderem tempo e espaço para rematar nas melhores condições; a finalização de Marega na cara de Rui Patrício; o lance em que Herrera, tendo Layún solto na direita e Aboubakar a correr para o segundo poste, decide rematar; o lançamento de Alex Telles para uma zona proibida do campo, que forçou o erro de Danilo. Tudo isto são pormenores, mas foram todas jogadas candidatas a decidir um clássico. Não deram prejuízo, mas também não deram o lucro mais desejado. Já se sabe: os clássicos decidem-se nos pormenores, e estes merecem maior acerto nos momentos-chave.

A quebra física (-) - O FC Porto fez 60/65 minutos de elevada intensidade, e isso refletiu-se no rendimento da equipa durante a segunda parte. Era necessário mexer, mas Sérgio Conceição deparava-se com um problema: não havia músculo/pulmão no banco. A decisão era difícil, mas a entrada de Otávio, para a saída de Herrera, fragilizou naturalmente a equipa na dimensão física do meio-campo. Soares e Corona entram também já relativamente tarde, mas era dos pés de Aboubakar e Brahimi, desgastados, que poderia sair o caminho para a vitória em Alvalade. Sérgio Conceição está a fazer milagres, ao reinventar/resgatar jogadores como Marega, Sérgio Oliveira ou o próprio Herrera, mas não pode jogar o que não tem no baralho. 

Líderes à 8ª jornada, pela primeira vez desde 2013, e curiosamente, tal como na época com Paulo Fonseca, logo após um clássico com o Sporting, que permitiu passar a somar 22 pontos em 24 possíveis. Recomenda-se, por isso, que a calma que seja companheira da confiança ao longo da época. Mas quando um treinador sai de casa de um candidato ao título insatisfeito porque jogou muito melhor e manteve o primeiro lugar, isto diz tudo da mentalidade competitiva que habita no balneário do FC Porto. Não é só à Porto: é à Conceição. 

sábado, 30 de setembro de 2017

Os Pentas: Setembro de 2017

Um mês irrepreensível no Campeonato, no qual o FC Porto continua líder invicto e 100% vitorioso, e do inferno ao céu na Champions, prova em que os dragões, depois de uma pálida e insuficiente imagem diante de um Besiktas muito superior, lavaram a cara e brilharam ao mais alto nível no Mónaco. Todos concordarão: o FC Porto termina este mês mais forte, mais confiante e com mais soluções do que há quatro semanas atrás. E para O Tribunal do Dragão, estes foram os cinco melhores de Setembro. 

5. Danilo Pereira

Após ter começado a época longe da melhor forma física e a cometer erros impróprios para um jogador do seu calibre, o rendimento de Danilo disparou nos últimos jogos. Contribuiu ativamente para a vitória em Vila do Conde, com o seu primeiro golo da época, e continua a destacar-se na simplicidade de processos - é o jogador com maior eficácia de passes no 11 (89,6%), mas isso não significa que esteja sempre a jogar curto e para o lado (o seu passe médio é de 20 metros, o que mostra que, apesar de ocupar uma posição específica no meio-campo, não deixa de oferecer amplitude à equipa). A palavra-chave: firme

4. Alex Telles

Repete o lugar no top 5, destacando-se uma vez mais na forma como consegue municiar o ataque. Continua a ser o jogador com mais passes para finalização no Campeonato, com 22 ofertas (uma estatística sempre influenciada por bater as bolas paradas, um pouco à imagem da primeira época de Layún no FC Porto), e dois dos golos marcados neste mês saíram de pontapés de canto batidos pelo brasileiro. Em nenhum dos laterais do FC Porto o seu ponto forte é defender, mas Alex Telles continua regular e fiável nesse aspecto, além de já ter igualado Óliver Torres como melhor assistente da equipa, com quatro passes para golo. Repete-se a palavra-chave: municiador.

3. Moussa Marega

Três golos, três assistências e lugar cativo no onze de Sérgio Conceição, que não prescinde um minuto que seja do maliano no ataque. Se é certo que Marega continua a ter a pior percentagem de passes no plantel (atrás de Casillas) e lidera a lista de perdas de bola e posse, também é verdade que conseguiu três assistências durante Setembro, acrescentando a isso três belíssimas finalizações nas últimas três jornadas, contornando com a palavra-chave deste mês as suas limitações técnicas: eficácia. Marega está a contribuir com um golo por jogo para a equipa, ora na finalização, ora a servir os colegas. Um bom mês para Marega, que mostrou que o futebol nem sempre se faz apenas de artistas. 

2. Vincent Aboubakar

Quatro golos no último mês e uma assistência, apesar de ter falhado a receção ao Besiktas. Aboubakar continua a pecar por vezes na finalização (e está a ser muito bem servido pelos colegas, pois 23 dos 29 remates que leva no Campeonato foram feitos dentro da grande área), mas está para já a cumprir a época mais goleadora da sua carreira e sua influência no ataque é notória, ora a jogar em profundidade, ora em aguentar a posse, ora em criar espaços. A sintonia com Marega e Brahimi acentuou-se no último mês e Aboubakar só não leva o «Penta» do mês para casa pois alguém decidiu roubar o palco nas últimas semanas, mas o percurso de Aboubakar vai-se descrevendo na palavra que os avançados mais gostam de ouvir: goleador

1. Yacine Brahimi

Esteve presente em todos os «Bonés» d'O Tribunal do Dragão em Setembro e foi eleito três vezes o MVP pelos leitores do blogue. E não é coincidência. Brahimi reencontrou-se com o nível que o coloca muito acima do Campeonato português, foi dos poucos a dar luta e a mostrar clarividência diante do Besiktas e partiu a loiça no Mónaco. A sua presença na lista de marcadores pode parecer curta (dois golos e uma assistência no último mês), mas todos sabem que Brahimi é muito mais do que isso.

É com larguíssima distância o melhor driblador da Liga (32 lances eficazes, mais do dobro de Gelson Martins), para já o 2º melhor da Champions (atrás de Neymar) e está a passar melhor a bola, sobretudo no passe longo - no Mónaco ficou na retina a bola para Marega no lance do 2x0, e no Campeonato Brahimi é o portista que menos tem errado nos passes longos. O perfil de individualista também é contrariado por, entre os atacantes dos candidatos ao título, ser aquele que mais passes completa no Campeonato, com 288 em sete jogos. O futebol não se faz apenas de artistas, mas Brahimi não só o é, artista, como reclama todo o palco para ele.


Ainda assim, há algo que continua a faltar nas fichas de Brahimi: aquela grande exibição num clássico (com ele na equipa, o FC Porto venceu apenas 4 de 11 jogos contra Benfica ou Sporting, sem qualquer golo ou ação decisiva do argelino). O arranque de Outubro é uma boa oportunidade para mudar a história e começar a definir os Pentas do próximo mês.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A outra grandeza

Vamos lá tentar resumir isto: o FC Porto venceu por 3x0 em casa do Mónaco, campeão francês e equipa-sensação na Europa na última época, com Sérgio Oliveira no meio-campo, Marega no ataque, 90 minutos de superioridade tática e num jogo em que Herrera travou mais remates do que Iker Casillas. Agora imaginemos que nos tinham contado esta há três meses. Quantos acreditariam?


Um homem tornou isto possível: Sérgio Conceição. Prometeu que ia mostrar à Europa a grandeza do FC Porto, mas fez algo mais: reafirmou a sua grandeza enquanto treinador. Num jogo em que teve uma opção que traz à memória as noites europeias em que os treinadores parecem imaginar o que não imaginaram em nenhum outro momento na época (vidé Pitbull na frente num 5x3x2 em Milão ou Nuno André Coelho a trinco em Londres), Conceição ganha em toda a linha. E com ele todos nós.




Marega (+) - No jogo frente ao Portimonense, O Tribunal do Dragão destacou este facto sobre Marega: «Apesar de só ter feito dois passes para o ataque, num deles deu o golo a Brahimi». E agora, o que aconteceu no Mónaco? O mesmo que tem acontecido em quase todos os jogos: Marega voltou a ser o jogador com mais perdas de bola e mais passes errados, inclusive acima de Casillas e Benaglio. Marega completou apenas 14 passes e perdeu 42% das bolas de que dispôs. E o que é que também fez? Duas grandes assistências, primeiro ao servir na perfeição Aboubakar, depois ao ter a calma num lance de enorme confusão para entregar o 3x0 a Layún.

Sim, é o jogador de campo com mais perdas de bola entre os que já completaram a 2ª jornada da Liga dos Campeões. E já é também um dos melhores assistentes, com dois passes a régua e esquadro para o golo. E entre todas as suas gritantes anomalias técnicas, em 9 jogos oficiais já teve colaboração direta em oito golos. E este FC Porto de Sérgio Conceição, que nos entusiasma, tem um denominador comum desde o primeiro golo da época 2017-18: Marega esteve sempre em campo, não falhando um minuto. Sérgio Conceição tem as suas razões para não prescindir dele. E o homem já mostrou que percebe qualquer coisa disto. Marega até pode falhar 15 passes em Alvalade e perder 25 bolas. Mas basta uma ou duas no sítio certo. 

Yacine Brahimi (+) - Um minuto de silêncio em memória dos rins de Lemar. Brahimi voltou a estar endiabrado e a mostrar que está num dos melhores momentos de forma desde que veste a camisola do FC Porto. Esteve na jogada do 2x0, foi responsável pela esmagadora maioria dos desequilíbrios individuais, correu, defendeu, pressionou, tabelou com os colegas e garantiu sempre o rasgo de criatividade que, com este 11, pode nem sempre abundar. Brahimi gosta das noites de Champions, mas nos clássicos do futebol português ficou sempre um pouco aquém das expetativas. Será desta que a história muda?



Aboubakar (+) - 15 jogos na Champions, 11 golos. Uma média que fala por si. Voltou a mostrar uma enorme atração por carambolas/recargas no lance do 1x0, mas finalizou com enorme precisão o segundo. Teve alguma dificuldade em distribuir a bola no último terço, mas apareceu no sítio certo, em dose dupla, para colocar o FC Porto na rota dos três pontos. O seu oportunismo fez crer que, com ele em campo, talvez a história da primeira jornada pudesse ter sido diferente. Ah, uma pequena nota: daqui a três meses pode assinar livremente, a custo zero, por outro clube. E jogadores que garantem golos na Champions não costumam passar despercebidos. 

Sérgio Conceição (+) - Esta vitória começa na derrota frente ao Besiktas. Na primeira jornada, Sérgio Conceição tinha duas hipóteses: ao mantinha o esquema que estava a dar resultado no campeonato, ou reforçava o meio-campo e aproximava-se do 4x3x3. Foi fiel às suas ideias na primeira jornada e o FC Porto revelou-se insuficiente não só frente ao Besiktas, mas deixando uma imagem clara de que faltava ali pedalada para a Champions.

O treinador reviu os erros e corrigiu tudo. Literalmente tudo. Todos os erros que o FC Porto cometeu frente ao Besiktas foram corrigidos frente ao Mónaco. Sim, foram só 90 minutos, mas foi um jogo, na sua totalidade, a roçar a perfeição. O FC Porto soube entregar a iniciativa de jogo ao Mónaco sem nunca perder o controlo, foi forte no contra-ataque e no momento de transição, esteve sempre impecavelmente organizado e soube anular os pontos forte do Mónaco, a ponto de Iker Casillas só ter sido chamado a intervir duas vezes, apesar de uma bola ter ido à trave. Em noites de Champions, em que os jogos fora de casa são sempre complicados, é impossível pedir mais. 

Uma das melhores exibições do último ano e da qual ainda ficaram de fora jogadores como Maxi, Óliver e Soares e na qual Sérgio Oliveira saltou do nada para o 11 pela primeira vez com Sérgio Conceição (nem no Nantes lhe tinha dado a titularidade). Sérgio Conceição voltou a admiti-lo no fim do jogo: o plantel tem poucas soluções. Mas que ninguém duvide: temos o homem certo para aproveitá-las ao máximo ainda que, convém lembrar, estamos apenas no final de Setembro. 

Segue-se o jogo mais difícil do calendário nacional, em Alvalade. Será muito pedir mais do mesmo?

domingo, 24 de setembro de 2017

A sétima

Sete jogos, sete vitórias e confiança renovada antes de um difícil ciclo de três jogos fora de casa, em que estarão em jogo a liderança do campeonato e, muito possivelmente, o apuramento para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. 


A Champions representa outro tipo de exigência e Alvalade é o estádio mais difícil para o FC Porto em Portugal, mas todo o percurso da equipa de Sérgio Conceição até ao momento só merece elogios e vai dando provas de superação. Pegar num plantel já sem cultura de campeão, numa lista de dispensas e sem ter direito a um único reforço e, ainda assim, ter um dos 3 melhores arranques da história do clube, o segundo melhor ataque em 60 anos e a segunda melhor defesa em duas décadas dispensa quaisquer tipo de elogios: é uma qualidade de trabalho que fala por si própria. 

Sérgio Conceição reergueu o espírito competitivo do FC Porto em dois meses de campeonato e leva-o a Alvalade invicto e na liderança isolada. Um percurso que não se idealizaria com este plantel e, provavelmente, com nenhum treinador no início da temporada. 

Quando chegou, Sérgio Conceição disse que, para ele, jogar bem era vencer. A equipa joga bem e vence. Que mais se pode pedir?




Yacine Brahimi (+) - Uma noite em cheio. Sorte no primeiro golo, mestria na condução e conclusão no segundo. Uma vez mais, voltou a ser o jogador que mais vezes recuperou a posse de bola, falhou apenas um drible e atirou 4 vezes à baliza, tendo sido bem mais incisivo e prático junto à grande área quando comparado com os últimos jogos. Falhou alguns passes, mas nas ações individuais tudo lhe correu de feição para o seu melhor jogo nesta temporada.


Miolo (+) - Certinhos, dinâmicos, rijos. Herrera e Danilo asseguraram uma eficácia de passe de 95% no meio-campo e, sem a criatividade e amplitude de Óliver na zona central, o mexicano compensou com velocidade, agressividade e um jogo mais direto que favoreceu a equipa. Herrera fartou-se de correr, interceptar e pressionar, e ainda assim ainda foi o jogador que mais ocasiões de golo criou (três). Abusou no número de faltas e não ficou bem no primeiro golo do Portimonense, mas libertou muitas vezes Danilo do trabalho defensivo - praticamente só teve que ganhar lances pelo ar e não falhou um único passe. Ninguém poderá questionar Sérgio se optar por manter este miolo, ainda que continue a ser difícil imaginar que o melhor FC Porto não tenha Óliver no 11.

Eficiência africana (+) - Um golo e uma assistência para Marega, um golo e uma (com a colaboração de Herrera) assistência para Aboubakar. O camaronês, uma vez mais, parece que tem mais facilidade em marcar carambolas ou recargas, enquanto Marega teve uma finalização perfeita após grande jogada de Corona (grande envolvência nos dois golos, mas com a forma intermitente que já lhe é caraterística). Isto atesta influência e eficiência mesmo sem necessariamente fazer grandes jogos no envolvimento coletivo da equipa. O que não continua, de todo, a ser o caso. 

Há a opinião e há os factos. Dizer que é bom ou mau é opinião. Isto são os factos: Marega voltou a ser o jogador que mais vezes perdeu a bola, só passou uma vez por um adversário e foi o que mais passes falhou - fez apenas dois passes para a frente em 90 minutos, de resto sempre a jogar para trás (Aboubakar similar, com apenas quatro jogadas para a frente). Isto não é teima ou desvalorização, é o que aconteceu em campo. O que aconteceu também em campo é que Marega não desperdiçou a oportunidade de matar o jogo e que, apesar de só ter feito dois passes para o ataque, num deles deu o golo a Brahimi. Isto foi o bom. O resto foi mau. E o bom sobrepôs-se ao mau, porque rendeu golos ao FC Porto. 11 golos em 7 jornadas, e seis delas tiveram golos da dupla africana reabilitada por Sérgio Conceição, pelos atletas e, também, pelos adeptos, que souberam puxar por jogadores outrora proscritos. 




Acorda, rapaz (-) - Nenhuma equipa desaprende a defender em três jogos. Mas como é claro, sofrer 6 golos em 3 jogos, em vésperas de 3 difíceis deslocações em que o FC Porto muito possivelmente atacará menos do que os adversários, é motivo de preocupação. E nesse epicentro está Felipe, de há umas semanas para cá uns furos abaixo dos colegas. Tem adornado demasiado na saída de bola, complica o que antes resolvia com um pontapé, está a perder vários lances no corpo a corpo e foi completamente comido no lance do 3x1, com um mau timing de entrada sobre o adversário e corte falhado - no lance do 5x2, reparte culpas com Marcano, pois o defesa do Portimonense finaliza entre os dois centrais. Felipe tem que subir de rendimento para os jogos que aí vêm, até porque vai ter muito mais trabalho do que o que vem tendo nos últimos jogos.

A concluir: o FC Porto regressa à liderança isolada do Campeonato, pela primeira vez desde dezembro de 2015. Na altura, depois da subida ao primeiro lugar, seguiu-se uma derrota em Alvalade, despediu-se o treinador e a equipa mergulhou numa declarada crise de confiança e resultados; serve também isto para lembrar que um percurso de 644 dias pode ser destruído no espaço de duas semanas. Cabe aos adeptos não permitirem que isso se repita, pois Sérgio Conceição e o plantel não merece outra coisa que não total compromisso e apoio.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Marega: 11 dados para compreender o camisola 11

É um nome incontornável neste arranque de época. Encabeçava qualquer lista de dispensas na pré-época, mas Sérgio Conceição, entre um misto de falta de alternativas e de vontade de recuperar um avançado que viu fazer golos em Guimarães, apostou em Marega. Os adeptos dividem-se: uns aprenderam a apreciar o que Marega pode oferecer à equipa e os golos que já marcou, outros preocupam-se que o ataque possa estar dependente de um jogador com notórias debilidades técnicas e que se impõe, basicamente, pela sua capacidade física. 

Isto é o que dizem os números, num levantamento d'O Tribunal do Dragão sobre as 6 jornadas já disputadas no Campeonato (Marega jogou 58 minutos na primeira jornada e não falhou um minuto desde então). 


Eficácia - Marega leva 4 golos nos jogos já disputados, à média de 6 remates por partida, o que lhe dá uma eficácia de 16,67% na hora de concretizar. Já acertou duas vezes na trave.

Enquadramento - Marega é o 3º mais rematador de todo o campeonato (24), apenas superado por Aboubakar (26) e Jonas (29). Entre todos os seus remates, 15 foram efetuados já dentro da grande área e 42% não foram à baliza. Um dado a melhorar. 

Para onde Marega remata (Squawka)
Ocasiões falhadas - Marega já desperdiçou 4 ocasiões de golo flagrantes no Campeonato. Tantas quanto Bas Dost e apenas superado por... Aboubakar, que falhou sete. Apesar de Aboubakar ter para já mais eficácia (19,2%), a eficácia dos dois africanos não apresenta grandes diferenças.

Faltas - A sua dimensão física obriga a que, muitas vezes, os adversários sejam obrigados a recorrer à falta para evitar a progressão de Marega. E neste caso, o maliano é o 2º jogador mais castigado do FC Porto, ao ter já sofrido 12 faltas. Pior só Brahimi (17).

Bolas perdidas - É o caso mais alarmante em Marega: a quantidade de vezes em que uma bola nos seus pés, na manobra ofensiva da equipa, é uma bola perdida. É de longe o jogador do FC Porto que mais vezes perde a posse de bola, entre passes falhados, receções falhadas, maus cruzamentos ou dribles incompletos. Nas 6 primeiras jornadas, foram mais de 80 as ocasiões em que Marega desperdiçou a posse de bola. Curiosamente, em dois jogos em que a sua exibição até foi apreciada por alguns adeptos (Chaves e Braga), perdeu 21 e 22 vezes a bola, respetivamente. Demasiado.

Passe - É o jogador que pior passa a bola, com exceção do guarda-redes (falham muitos passes entre pontapés de baliza e lançamento longo). Marega tem uma eficácia de apenas 69,5% no passe. O segundo pior, curiosamente, é outro avançado, Soares, com 74,1%. Este dado merece preocupação por Marega ser um dos jogadores que mais tenta o passe curto em detrimento do passe longo (média de 15 metros por passe - só fez uma variação de flanco no Campeonato), mas ainda assim ser o menos eficaz. 

Passes para ocasião - Apesar de ser o menos eficaz no capítulo do passe, Marega já criou 6 ocasiões de golo para os colegas no decorrer do Campeonato. Melhor só Brahimi, Maxi Pereira, Óliver, Ricardo e Alex Telles, este último com 3,3 por jogo. Isto também indica que as ocasiões de golo do FC Porto são quase sempre construídas pelo corredor e, tirando Óliver, ninguém o faz pelo eixo central. 

Papel na defesa - Em média, Marega tem uma ação defensiva eficaz por jogo. Quatro delas foram pontapés para fora das quatro linhas e duas cortes que permitiram ao FC Porto recuperar a posse de bola.

Duelos - Quando o assunto é o 1x1 contra um defesa ou uma disputa no jogo aéreo, Marega fica pouco acima do saldo positivo. Marega ganhou 54% dos duelos que disputou, e é no jogo aéreo que está a maior preocupação - perdeu 60% dos lances que disputou. No que toca ao drible, conseguiu passar 10 vezes pelos adversários ao longo das 6 jornadas já disputadas. Não é muito? Não, mas é o 2º melhor registo do FC Porto, pois só Brahimi tem mais. Isto revela também a incapacidade do FC Porto em ganhar lances de 1x1 do meio-campo para a frente e o défice de criatividade que há no ataque. Logo, não surpreende que, perante a falta de criatividade no plantel, Sérgio Conceição recorra à força de Marega. 

Fora-de-jogo - O FC Porto tem solicitado bastante Marega nas costas da defesa, mas o avançado tem dificuldades em ler o jogo. Prova disso é que é o 2º jogador que mais vezes foi apanhado em posição irregular no campeonato, com 7. Ainda assim, muito longe de Seferovic, com 13 foras-de-jogo. 

Cruzamentos - Apesar da quantidade de vezes em que Marega consegue ganhar metros pelo corredor direito, essas jogadas raramente se traduzem em algo com efeito prático. Entre os 508 minutos disputados na Liga, só conseguiu fazer um cruzamento (apesar de ter sofrido uma falta para grande penalidade numa jogada deste tipo que não foi assinalada). 

Isto é o que dizem a estatística e os factos. E os adeptos, que dizem?

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Realidade contrária e mais três pontos

Em quase todos os jogos do FC Porto na I Liga podemos contar com uma coisa: uma equipa a assumir o jogo, a circular mais a bola, a tentar construir com critério e a jogar de forma apoiada; e outra equipa a jogar de forma mais direta, a procurar saídas rápidas e tentando ganhar metros na profundidade. Em Vila do Conde, isso não foi exceção. Surpresa foram os papéis invertidos em campo.


O FC Porto levou três difíceis e saborosos pontos de um jogo em que o Rio Ave teve sempre mais bola e circulou-a melhor, mas só por uma vez a enquadrou com a baliza de Casillas - o primeiro golo da época foi sofrido na melhor altura possível (num jogo em que não causou prejuízo). Uma bola parada e uma boa jogada entre Brahimi e Marega desbloquearam um jogo que mostrou que não é um acaso o Rio Ave estar em 5º lugar mesmo já depois de ter defrontado dois dos candidatos ao título. Uma lufada de ar fresco ver uma equipa mais «pequena» procurar jogar desta forma. Os parabéns para o adversário por isso.

Para Sérgio Conceição e companhia segue a sexta vitória consecutiva, 18 pontos e a certeza que o clássico contra o Sporting, a 1 de outubro, terá em jogo a liderança do Campeonato. O treinador disse, no início da época, que para ele jogar bem era ganhar. E que bem sabe ganhar.




Danilo Pereira (+) - Ora bons olhos o vejam! Depois de alguma quebra na sua forma recente, voltou a encher o campo e a contribuir ativamente para o triunfo do FC Porto. Pressionou mais à frente do que é habitual, ganhou metros no terreno e foi o jogador que mais bolas recuperou, cortou e intercetou. Fez também a diferença na grande área adversária, ao marcar o golo que permitiu dar liberdade, espaço e confiança à equipa.

Brahimi e Marega (+/-) - Tiveram o golo nos pés na primeira parte, mas Brahimi falhou quando tinha Cássio pregado ao relvado e Marega acertou na trave. Regressaram dos balneários renovados e revelaram grande entendimento na jogada do 2x0 - Brahimi muito bem no passe atrasado e Marega excelente numa finalização que pode parecer a mais simples, mas por vezes é a mais complicada (uma bicada seca lá para dentro). 

Desta vez Brahimi teve menos oportunidades de tentar o 1x1, mas se muitas vezes há muita parra para pouca uva, desta feita foi objetivo e eficaz nos desequilíbrios que teve a oportunidade de fazer. Já Marega voltou a ter, na segunda parte, a missão de galgar metros no meio-campo adversário, tentando impor-se pela dimensão física. Nos últimos jogos foi sempre o elemento que mais bolas e jogadas perdeu, mas desta vez esteve melhor nesse capítulo e ajudou a manter a presença no ataque.


E não se pode falar disto sem elogiar Sérgio Conceição. Aquando da criticada contratação de Marega, O Tribunal do Dragão só encontrou dois elogios para este jogador: «É forte fisicamente, é rápido. E está descrito Marega». Resultado? Sérgio Conceição encontrou utilidade para essa dimensão física e velocidade. Quando um jogador que não sabe fazer uma receção orientada se torna uma arma para ganhar jogos, é a maior prova cabal de que temos um treinador que está a aproveitar ao máximo o que tem. 




Contacto com bola (-) - A postura do FC Porto ontem está diretamente relacionada com a ausência de Óliver Torres. Os jogadores em campo tiveram uma média de apenas 26 passes por jogador - menos de metade dos números habituais de Óliver. Com o espanhol, o FC Porto circula melhor a bola, tem maior capacidade de variação do flanco e tem mais soluções para as tabelas curtas.

Desta vez, também por estratégia, isso não existiu. A equipa esteve mal no passe - falhou quase uma centena - e teve dificuldades em jogar em toda a largura do campo, deixando que fosse o Rio Ave a assumir-se nesse capítulo. A posse de bola não ganha jogos mas ajuda a controlá-los, coisa que o FC Porto não conseguiu nesta partida. O FC Porto preferiu - e conseguiu, diga-se - controlar o jogo sem bola. Um risco. 

Além disso, a equipa ganhou menos bolas divididas do que o Rio Ave, foi desarmada o triplo das vezes em relação ao adversário e acabou por cometer o dobro das faltas. Felizmente, faltou sempre ao Rio Ave discernimento e maior critério no último terço, caso contrário os danos poderiam ter sido maiores. Mérito também para a equipa, que defendeu bem e resumiu o Rio Ave a um único remate à baliza de Casillas. Mas às vezes basta um para se perderem pontos. 

O princípio da pressão (-/+) - A intenção estava lá e era boa: pressionar alto. Mas faltaram resultados práticos. Por vezes a equipa estava bem posicionada para perturbar a saída de bola do Rio Ave, mas faltava o seu quê de ambição e vontade em querer ganhar a bola, em vez de simplesmente manter o adversário a trocar a bola na sua defesa. Resultado? Os defesas do Rio Ave fizeram, entre eles, 204 passes, quase tantos como os jogadores de campo do FC Porto. Mas foram poucas as vezes em que o FC Porto soube aproveitar o facto de o Rio Ave ter trocado tanto a bola à entrada da sua grande área. Era possível capitalizar isso de forma superior. 

E por falar nisso: Felipe, Otávio e Aboubakar ficam a dever-nos uma amostra melhor para sexta-feira, dia em que o FC Porto pode, pela 3ª vez na sua história, somar a 7ª vitória em 7 jornadas. Melhor era, literalmente, impossível.