quinta-feira, 26 de abril de 2018

Cinco antes dos seis milhões

Uma viagem curta aos números. 79 pontos em 31 jornadas. Melhor, em toda a história do FC Porto, só em 1995/96, com Robson, também essa a única época em que os dragões tinham mais golos do que agora (80 contra 78). São bons predicados antes de um dos jogos mais importantes da história recente do FC Porto, a visita ao Marítimo. 

Nos Barreiros, onde o FC Porto não conseguiu vencer nas suas últimas seis visitas, não vão jogar apenas Marítimo e FC Porto: vai jogar também o Benfica, e tudo aquilo que isso implica. É o jogo mais difícil do ano. Aquele em que menos poderemos errar, aquele em que mais teremos que nos dedicar. 

Um Marítimo de qualidade, que joga uma cartada europeia, forte em casa, que faz poucos golos mas amarra bem o jogo e que perdeu apenas dois jogos em 20 nesta temporada. Um Marítimo que vai, certamente, apresentar mais dificuldades do que o Belenenses no Restelo ou o Paços de Ferreira no Capital do Móvel. Cabe ao FC Porto mudar a história. Com inteligência, eficácia, capacidade de sacrifício e o pragmatismo que for necessário. A forma como o Benfica vai entrar em Alvalade dependerá muito da forma como o FC Porto sair da Madeira. 

É só e apenas um jogo determinante na luta pelo título de campeão nacional e na defesa do estatuto de único pentacampeão do futebol português. É apenas a oportunidade que querem e pela qual lutam há cinco anos. É apenas o tipo de jogo em que William Shankly pensou quando criou a sua mais célebre frase.




Alex Telles (+) - Certinho a distribuir (93% de passe), aguerrido e produtivo  a atacar (4 ocasiões de golo), fechou com chave de ouro uma boa exibição com um livre direto daqueles que parecem ser uma raridade no Dragão. Passou a maior parte do jogo a jogar sobre o meio-campo adversário e esteve na génese de mais dois golos do FC Porto. Quando pensamos num jogador que merece ser banhado de aplausos lá para maio, Alex Telles encabeça a lista. 

Ricardo Pereira (+) - Rebentou na segunda parte, ele que vinha sendo talvez o jogador mais incansável dos últimos jogos. Não subiu tanto como Alex Telles, mas foi eficaz quando o fez: assistiu Corona para o 4x1 e ganhou 12 dos 16 duelos que disputou. Cumpriu defensivamente, num jogo também seguro da dupla Felipe-Marcano.

Marega (+) - Um jogo... à Marega. Abriu o marcador com oportunismo e, aos 16 minutos, aguentou toda a pressão da defesa do Vit. Setúbal até conseguir o passe atrasado para Brahimi faturar. Foram os pontos altos de uma exibição em que o maliano voltou a alternar a eficácia com a displicência, tendo perdido 9 dos 12 duelos que disputou e desaparecido da manobra coletiva da equipa após o 3x0, algo explicado por problemas físicos e que levou posteriormente à sua substituição. 

A sua presença física e velocidade continuam a ser determinantes para ajudar o FC Porto a esticar o jogo e a ter profundidade, algo que curiosamente joga muitas vezes contra Marega - acabou o jogo com 4 faltas cometidas e nenhuma sofrida; mas, tem que ser dito, qualquer outro jogador provavelmente teria ido ao chão, para ganhar a falta, antes do lance do 3x0. Marega continuou e já participou em 26 golos na Liga. Falha mais do que os outros, mas também não há ninguém a acertar mais do que ele. 


Segue-se o Marítimo. Vamos facilitar a palestra pré-jogo de Sérgio Conceição: é só colar isto nos balneários. 

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Caça ao golo em quatro finais

Ao sétimo e último clássico da época, a primera derrota frente a um dos rivais. As grandes penalidades voltaram a ser uma realidade na qual o FC Porto não encontrou a felicidade, ironicamente novamente com os ferros à mistura. Para trás ficam 660 minutos (sete jogos + um prolongamento) nos quais o FC Porto confirmou dois predicados nos clássicos esta época: uma equipa que defende bem, mas que também denuncia muitas limitações na dimensão ofensiva. 

Em Alvalade, repetiu-se um filme que não era inevitável, mas que já havia sido anunciado. Recordando aquele que foi o único «Machado» do jogo da primeira mão, em que o FC Porto venceu por 1x0, golo de Soares. 


No post anterior também já tinha sido feito o alerta: o Sporting venceu todos os jogos que disputou em Alvalade, a nível interno, desde o início de novembro e sempre sem sofrer golos (se der para prolongarem essa sequência até à receção ao Benfica, a malta é capaz de agradecer). Mas o que aconteceu ao longo dos quase 90 minutos em Alvalade? O FC Porto fez o que quis. 

Sérgio Conceição montou uma equipa para anular o Sporting. E conseguiu-o, quase até ao final. Essa foi uma constante nos clássicos desta época: o FC Porto poucas vezes concedeu grandes ocasiões de perigo aos rivais. Basta dizer que foram apenas 2 golos sofridos: o de Rafael Leão, no Dragão, e o de Coates, numa jogada de ressaltos/bola parada. É atípico sofrer tão poucos golos em clássicos. 

O Sporting, obrigado a ganhar e à reviravolta, foi quase inexistente ao longo dos 90 minutos. Bas Dost não se viu a incomodar Casillas, Bruno Fernandes não teve espaço para a meia distância nem para o último passe, os laterais foram barrados e o pouco que Gelson produziu não chegou para pôr à prova Casillas. No que toca à missão defensiva, o FC Porto esteve quase sempre no controlo.

Mas faltou pensar no outro lado. Pois se é verdade que o FC Porto secou o Sporting, também há que reconhecer que o FC Porto foi absolutamente inexistente no ataque. Rui Patrício não fez uma defesa. E, cúmulo das ironias, também não teve que defender nenhum penálti para seguir em frente. O Sporting pouco conseguiu fazer, mas Rui Patrício também não teve que fazer quase nada. Não combina com algo positivo. 

Na primeira parte o FC Porto teve momentos de boa circulação, soube jogar em apoio e com as linhas mais próximas do que o fez na Luz, mas a equipa praticamente não teve presença nos últimos 18 metros. Admita-se ou não, o FC Porto jogou sempre com o 1-0 da primeira mão no pensamento, e não admitiu nunca que o Sporting pudesse chegar ao golo e forçar o prolongamento. 

Um momento muito contentado pelos adeptos do FC Porto foi a última alteração de Sérgio Conceição, a entrada de Diego Reyes. E a verdade é que essa alteração, dentro das opções existentes, é de fácil compreensão.

O FC Porto esteve sempre em controlo do jogo. O Sporting, mesmo após a entrada de Montero para jogar ao lado de Bas Dost, não estava a colocar bolas na zona de finalização. Mas Sérgio Conceição quis antecipar-se à possível reação do Sporting. Felipe e Marcano estavam a jogar para dois avançados do Sporting. E, para os mais esquecidos, o FC Porto não só não tem Danilo como não tem nenhum outro médio-defensivo no plantel. Ali, naquele momento, foi a alteração que qualquer treinador faria: colocar um tampão na zona central, para evitar que os centrais fiquem expostos a uma situação de 2x2.

E poderia perfeitamente ter funcionado. Tanto que o golo do Sporting acontece depois de duas situações que nada têm a ver com a composição tática da equipa: uma bola parada e, logo depois, um corte incompleto de Marcano. Foi o pior que podia ter acontecido: no momento em que reforça o setor defensivo, e até ganha mais argumentos para as bolas paradas defensivas, o FC Porto sofre um golo que é raro de ver acontecer nesta equipa (uma falha de um central na grande área).

Nas grandes penalidades, Sérgio Conceição fez o inverso ao que é comum nos jogos: colocou os defesas a bater primeiro. E Herrera, Aboubakar e Brahimi, que tinham falhado na Taça da Liga, ficaram fora da lista dos 5 batedores. O único a falhar foi Marcano (que tinha marcado na vitória no Campeonato), que até conseguiu enganar Rui Patrício, mas o poste voltou a fazer a diferença. 

Mas foi pelos penáltis que o FC Porto se pode queixar de falhar o Jamor? Não. Foi por um lance de infelicidade na grande área e por não ter tido a ambição de procurar um golo que mataria a eliminatória em Alvalade. O FC Porto esteve tão concentrado e empenhado na missão de anular o Sporting, algo que conseguiu quase até ao fim, que se esqueceu de impor a sua própria força. 


A dificuldade do FC Porto em fazer golo nos grandes jogos já foi aqui diversas vezes analisada, desde a Champions aos clássicos. Mas curiosamente, isto vai de encontro à filosofia que Sérgio Conceição assumia antes de chegar ao FC Porto. 


Com Sérgio Conceição, os clássicos não são jogos para 4x3. São jogos para 1x0. Uma equipa que defende bem, anula bem o adversário, mas que depois acaba por se limitar a ela própria no ataque. Há que reconhecer que o FC Porto, nos sete clássicos disputados, teve muito mais volume ofensivo do que os adversários, mas para a história ficam apenas quatro golos - ou cinco, contando com o que foi anulado a Herrera na receção ao Benfica. 

A última imagem é sempre a que fica. Por isso recordamos sempre o golão de Herrera na Luz, aos 90 minutos, e ficámos a ver uma exibição de muito empenho, garra, luta e dedicação até ao final. Mas a verdade é que, até ao golo de Herrera, a última vez que o FC Porto tinha criado perigo foi no remate em arco de Brahimi, aos 66 minutos. Desde então, foram quase 25 minutos em que o FC Porto não metia bolas na frente, não chegava à grande área e não criava situações de remate. Não tivesse existido o golo de Herrera e provavelmente muitos encontrariam, na exibição do FC Porto na Luz, tantos ou mais defeitos do que os viram nas meias-finais da Taça em Alvalade. 

Mas a que se deve essa seca de golos? À dinâmica da equipa? Ou ao subrendimento individual? Basta olhar para a seca de golos dos avançados para perceber que passa por aí. Porque as lesões não só limitam o FC Porto nas suas opções. A lesão, além de afastar um jogador dos relvados, quebra o momento de forma/ritmo que esse atleta vinha tendo.

Aboubakar é um exemplo disso. O maior, aliás. Em dezembro era o segundo avançado mais concretizador da Europa, só atrás de Cavani. Mas nos últimos três meses e meio só conseguiu um golo. Soares marcou oito golos em fevereiro. Desde então não voltou a faturar. Brahimi, nas últimas 13 jornadas, teve intervenção direta em apenas 3 golos. Marega, o melhor marcador no Campeonato, não serve para os jogos grandes (leia-se, Champions, clássicos, eventualmente os jogos com o SC Braga - Marega não marcou nenhum golo nos principais desafios). Waris e Gonçalo Paciência foram reforços de inverno para o ataque, mas não só não faturaram como estão na cauda das opções para o ataque. 

Os avançados do FC Porto não estão a conseguir faturar. Entre lesões e azares, já lá vão dois meses desde a última vez em que os avançados do FC Porto fizeram golos (Marega e Soares, em Portimão). É certo que há o desgaste da época, e que a equipa atravessa a fase de maior exigência e dificuldade da temporada. Mas nos últimos dois meses, o FC Porto fez apenas 7 golos - nos 135 minutos anteriores a este ciclo, em Portimão e no Estoril, tinha feito oito. 

O Jamor já lá vai. O FC Porto não vai à final da Taça de Portugal, mas terá quatro finais pela frente. As próximas duas jornadas são de uma importância nuclear. Se o FC Porto passa o Vit. Setúbal e o Marítimo, pode ter uma oportunidade para matar o Campeonato na 33ª jornada. Sendo que não pode haver ilusões: se o FC Porto não fizer a sua parte, rapidamente corre o risco de ver o Sporting ficar mais próximo do que propriamente a liderança do Campeonato. Margem de erro zero. Há expetativas de ver o Benfica escorregar em Alvalade, mas o FC Porto só terá interesse em meter olhos nesse jogo se fizer seis pontos nas próximas duas jornadas. 

O Vit. Setúbal empatou na época passada no Dragão. E para quem não se recorda, o Benfica tinha empatado em Paços de Ferreira. Ou seja, se o FC Porto tivesse vencido os sadinos, passava para a liderança da Liga, à 26ª jornada, mas falhou. No espaço de um ano, o Vit. Setúbal empatou na Luz, ganhou ao Benfica no Bonfim, tirou pontos ao Sporting e, há duas semanas, só não voltou a empatar contra o Benfica por culpa de um penálti arrancado nos descontos. Máxima exigência, máxima seriedade.

Quatro finais para ganhar o Campeonato. Hoje podem ficar a faltar apenas três. E não vão ser 90 minutos. O Vit. Setúbal não vai deixar jogar 90 minutos. Nem metade. Quanto mais tardar o golo, mais a equipa adversária poderá dedicar-se à missão de atrasar a reposição da bola em campo, passar tempo a rebolar no chão e tentar enervar a equipa do FC Porto. No final não queremos uma equipa a queixar-se do anti-jogo: queremos sim, desde o início, uma equipa que não vai deixar o adversário fazer anti-jogo, pois vai atacar, massacrar e marcar cedo. 

Depende de vós.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Primeiro Alvalade, depois o Vit. Setúbal

O clássico continua na próxima segunda-feira, às 20.00, no Estádio do Dragão, frente ao Vitória de Setúbal. Porque nada do que se conquistou ontem à noite na Luz terá valor se o FC Porto não der continuidade a esse resultado já na próxima ronda, frente a um adversário que na temporada passada empatou na Invicta. 

A margem de erro é diminuta e o FC Porto sabe que, vencendo o Vitória de Setúbal e o Marítimo, pode muito bem sentenciar o título na 33ª ronda. Para já, no entanto, nada é mais fulcral e difícil do que bater o Vitória de Setúbal. Isto no que ao Campeonato diz respeito, pois já na quarta-feira há uma final duríssima em Alvalade, frente ao Sporting, contra um adversário que vai ter que atacar desde o primeiro minuto e que, desde novembro, venceu todos os jogos das provas nacionais em casa e sempre sem sofrer golos.

Foi de uma justiça poética que Herrera, a quem foi anulado o legítimo golo da vitória na primeira volta, tenha sido autor do golo que decidiu agora o jogo na Luz. Mas foi difícil, muito difícil. Benfica melhor na primeira parte, FC Porto muito melhor na segunda. Jogo decidido num detalhe, na terceira vez na história do FC Porto em que o golo da vitória frente ao Benfica apareceu ao 90 minutos ou na compensação. Também foi assim com Bruno Moraes e Kelvin, em épocas em que o FC Porto foi campeão por um ponto. Por um ponto se ganha, por um se perde. Daí que nada importe mais, neste momento, do que o Vit. Setúbal.





Ricardo Pereira (+) - Entrou algo nervoso, o que o levou a cometer alguns lapsos defensivos, mas rapidamente se desinibiu e partiu para uma exibição que fez dele o melhor em campo ao longo dos 90 minutos. Cansou só de o ver correr por todo o campo, ora junto ao corredor, ora nos movimentos interiores. Foi responsável por quatro das cinco ocasiões de golo que o FC Porto criou na Luz, duas delas nas quais serviu de bandeja Marega na grande área, além de ter estado perto do golo num remate desviado pelo maliano. 

Foi o jogador em campo com mais ações com bola, 91 no total (o segundo melhor do FC Porto, Alex Telles, teve apenas 62), tendo-se ainda destacado na forma prática como defendeu (10 alívios, 10 bloqueios de passes/cruzamentos/remates). Uma exibição completa, na qual foi ainda o atleta com mais duelos ganhos (14). Fernando Santos estava a ver e só resta mesmo perguntar: como é que este rapaz nunca fez um jogo oficial (não particular, oficial) por Portugal?

Centrais (+) - Não foi o melhor jogo da dupla Marcano-Felipe, mas na visita ao melhor ataque da Liga dificilmente se poderia pedir mais. Marcano e Felipe secaram por completo Raúl Jiménez, estiveram quase sempre bem posicionados defensivamente e, contra uma equipa especialista em arrancar faltas, cada um deles cometeu apenas uma falta em 90 minutos. Jogaram muito mais adiantados no terreno do que, por exemplo, a dupla do Benfica, algo que contribuiu e muito para a subida de rendimento na segunda parte.

Iker Casillas (+) - Se Pizzi aproveitasse aquela oportunidade, quiçá estaríamos, neste momento, preocupados com o Sporting e com o 3º lugar. Iker Casillas apareceu quando foi necessário, com uma intervenção decisiva, e continua sem saber o que é perder com o Benfica ao serviço do FC Porto. Talismã.

Héctor Herrera (+) - Porquê sempre ele? Por exibições assim. Num meio-campo no qual as fivelinhas Otávio e Sérgio Oliveira, sobretudo na primeira parte, sentiram muitas dificuldades, Herrera teve que trabalhar por dois. E não havia Danilo. Foi uma exibição de trabalho do mexicano, que foi quem mais faltas sofreu (6), quem mais passes completou (38), teve 13 ações defensivas e foi o médio com mais duelos ganhos (10). E olhem, resolveu um clássico que inverteu a classificação do Campeonato no minuto 90, a jogar em casa do maior rival. Sérgio Conceição admitiu, um dia, a dúvida: «Um mexicano a capitão do FC Porto?». E não, um mexicano não: mas um jogador à Porto sim. Como Héctor. E obrigadinho por dar uma folga ao TdD por, segundo tantos, defender em demasia Herrera. Hoje lhe têm a agradecer a liderança e um travão ao penta do Benfica.






Primeira parte (-) - Divididos entre o receio e números de circo, foram 45 minutos de fazer arrancar os cabelos. Otávio incapaz de apertar Fejsa e de receber no miolo. Brahimi sempre a pegar na bola demasiado longe e a querer fintar em zona proibida. Soares com mais faltas cometidas do que remates ou jogadas de perigo. Marega novamente a aparecer no sítio certo, mas para falhar as melhores oportunidades. Sérgio Oliveira bem a ganhar no primeiro metro, mas depois a deixar-se entalar entre os jogadores adversários. E gritos, muitos gritos de Sérgio Conceição, que sabia que a coisa não estava a funcionar.

A primeira parte revelou uma vez mais uma equipa com muitas dificuldades em construir. O pouco que a equipa fez nasceu das investidas de Ricardo. Jogadores demasiado distantes uns dos outros, dificuldades em segurar a bola no ataque, bolas em profundidade que não resultavam em nada e imensas dificuldades em progredir em apoio. A segunda parte mudou e, embora o golo de Herrera tenha nascido de um ressalto e se desvie de toda a lógica de um plano tático, há dois detalhes que não se podem desvalorizar: é Óliver quem ganha metros com bola e «puxa» Brahimi, que vai finalmente recolher a bola no espaço interior e, rapidamente, tenta a tabela com Marega. A sorte também se procura, e esta acabou por ser merecida.


Já dissemos que é preciso ganhar ao Vit. Setúbal? Pronto. Mas primeiro vem aí mais um clássico. Duas festas em quatro dias na Luz e em Alvalade seria inédito na história do FC Porto e deixaria a equipa com uma mão na Taça de Portugal. Há semanas piores.  

Um pormenor: Herrera preferiu mostrar o símbolo na frente do que o nome nas costas

domingo, 15 de abril de 2018

Mais do que 90 minutos

Continhas rápidas: uma vitória deixa o FC Porto na frente, com vantagem no confronto direto e em posição favorável na luta pelo título a quatro jornadas do final; um empate mantém tudo em aberto, mas levará o FC Porto a depositar quase todas as esperanças no que o Sporting possa fazer; e uma derrota pode deixar o FC Porto mais perto do 3.º lugar do que da liderança no fecho da 30ª jornada. 

É um jogo vital. São mais do que 90 minutos. São 90 minutos que podem resumir e simbolizar toda a luta não só desta época, mas também dos últimos quatro anos. 

Quando olhamos para o adversário, o que vemos? Um líder justo e meritório? Não. Vemos o Benfica dos zero pontos europeus. O Benfica que não sabe o que é ganhar um jogo de Champions ou um clássico esta época, que foi arrumado das Taças por equipas inferiores, que só não saiu do Dragão praticamente arredado da luta pelo título graças à eucaristia

Significa que está no papo? Claro que não. Porque isto só torna este clássico mais alarmante e importante: perder um título de campeão nacional, no qual chegámos a ter uma vantagem muito favorável, para o Benfica dos zero pontos europeus? No ano em que o Benfica foi ridicularizado pela Europa do futebol, vai conseguir igualar o FC Porto no feito único de ser pentacampeão nacional? 

É muito mais do que uma questão de orgulho. No post anterior, O Tribunal do Dragão aprofundou esta questão já comentada no início da época: esta não foi uma temporada preparada para fazer do FC Porto campeão. Mas a equipa superou-se, manteve-se de pé e chega à 30ª jornada da Liga a depender de si própria para acabar com o jejum de troféus. Graças a Sérgio Conceição, graças aos jogadores, graças ao balneário. Foram eles quem trouxeram o FC Porto até aqui. E são eles quem merecem esta oportunidade.

90 minutos. Mas são 90 minutos que vão muito para além disso. Está muita coisa em jogo. O mais importante, o regresso do FC Porto aos títulos. Não só na tentativa de recuperar o estatuto e o lugar que já foi seu, mas na defesa do seu legado, o de único pentacampeão nacional. Temos um grupo de jogadores que não sabe o que é ganhar no FC Porto. E esse é o maior desafio que podem ter: 90 minutos em que podem mudar a história. Entrar para a história, ou passar à história. 

Esta não é só a época do Benfica dos zero pontos europeus. Esta é a época dos e-mails, dos padres, das missas. Não vale a pena ter ilusões: por mais processos que corram, o Benfica não vai perder os títulos que já conquistou e não vai ter penalizações desportivas. Esqueçam. O máximo que poderíamos espremer disto é que todo o modus operandi do Benfica, ao longo do seu ciclo de tetracampeão, foi exposto. E isso deveria limitar o Benfica em toda a sua estratégia fora de campo. Então, na época em que se dão a conhecer os padres e as missas... o Benfica tornar-se pentacampeão? Não. Impensável. É mais do que uma questão de orgulho. É uma questão de justiça.

Temos 90 minutos para colocar um travão a isso. O Rúben Dias e o Fejsa vão dar porrada. O Pizzi vai passar o jogo a mandar vir e a semear perdigotos. O Rafa e o Cervi vão fartar-se de correr e de tentar ganhar em velocidade e em diagonais. O Jonas vai ser matreiro, vai ganhar faltas, vai saber provocar. Felipe, Brahimi e Soares vão ser particularmente picados durante o jogo. E do outro lado está o treinador que disse, na antevisão à partida, que não gostava de usar a palavra «guerra», mas que ironicamente publicou um livro chamado «A Arte da Guerra». Coerente. 

São mais do que 90 minutos. São a honra e o orgulho de 124 anos de história. 

domingo, 8 de abril de 2018

A mesma luta

Depois do jogo em Paços de Ferreira, O Tribunal do Dragão escrevia: «FC Porto, Benfica e Sporting vão muito provavelmente voltar a perder pontos nas próximas jornadas, mesmo à margem dos clássicos que faltam disputar.» Seguiu-se a vitória q.b. sobre o Boavista, com o mesmo alerta para a «extremamente difícil visita ao Belenenses, num jogo que pode ser tão traiçoeiro quanto as visitas a Moreirense, Aves ou Paços de Ferreira». E assim foi, pois o FC Porto deixou no Restelo pontos e a liderança no Campeonato. 

Faltam seis jornadas para o fim da época, e não vale a pena fazer contas: é preciso vencer. Tal como o é desde a primeira jornada. Mas mais do que uma retrospectiva aos 90 minutos no Restelo, importa é recuar 10 meses atrás e recordar o post «A luta de Sérgio», aproveitando para relacionador alguns trechos publicados na altura com a realidade atual da equipa:

«O FC Porto não é, neste momento, um clube ganhador, que esteja a conquistar títulos e troféus. Não é um clube onde os treinadores chegam, veem e vencem. Vamos cumprir um período de pelo menos cinco anos sem títulos. Temos então o nome de Sérgio Conceição: é um treinador ganhador? Também não, ainda não conseguiu troféus na sua carreira de treinador. 
Então. Clube que não está a ganhar + treinador que nunca ganhou... O que faz os adeptos acreditarem? Nada mais do que a mística e a vontade intrínseca de vencer. Pois se o clube não está, atualmente, numa fase vitoriosa, que exigências podem ser apresentadas a Sérgio Conceição para que ganhe no FC Porto pela primeira vez? E que condições terá ele para isso?»

A seis jornadas do final da época, as circunstâncias são as mesmas. Depois da derrota por 5x0 com o Liverpool, o TdD escrevia que Sérgio Conceição e o plantel tinham, efetivamente, culpas: o milagre que tem sido esta época é tão vasto que faz os adeptos acreditarem que estávamos em piloto automático rumo ao título. Que podíamos arrumar o Liverpool, que se calhar íamos à Luz carimbar já o título e que a segunda mão das meias-finais da Taça de Portugal será pouco mais do que uma formalidade. Pura ilusão. 

Esta não foi uma época preparada para o título. Nunca foi. Foi uma época atípica, em que o FC Porto não pôde reconstruir o plantel, fruto da má gestão da SAD que terminou no incumprimento do fair-play financeiro. Sérgio Conceição pegou no que tinha. Combinou os jogadores que ficavam, os que a SAD não conseguiu vender por propostas razoáveis e outros que seriam dispensados na maioria dos plantéis dos últimos 12 anos.

E o que foi fazendo o FC Porto jornada após jornada? Foi apresentando números no ataque, na defesa e na tabela classificativa do melhor que já se viu na história do clube. Isto são factos, é o que fica para a história. Mas isto nunca passou a ser uma época de condições favoráveis. Nunca. O plantel não passou de curto a vasto, e as últimas semanas foram a maior prova disso. 

Sérgio Conceição foi espremendo este plantel até ao máximo. Terminámos o mês de fevereiro a marcar em abundância, a jogar um futebol de grande qualidade e a vitória sobre o Sporting, no Dragão, elevou os índices de confiança ao máximo. Mas seguiu-se um banho de realidade: a equipa estourou. 

Nenhum plantel resiste eternamente a uma onda de lesões que priva o treinador das suas melhores opções. E quando falta qualidade à equipa, também falta qualidade às individualidades. Brahimi, o melhor jogador da primeira metade da época, perdeu gás. Aboubakar, que em dezembro era, a par de Cavani, o melhor marcador de toda a Europa, só pôde contribuir com um golo nos últimos três meses. Soares e Marega também sofreram lesões numa altura em que iam garantindo golos no Campeonato. 

Durante toda a ausência de Alex Telles, o FC Porto deixou de fazer golos de bola parada. Sérgio Oliveira, tal como aconteceu com José Peseiro, fez aqueles dois pares de jogos de boa qualidade, mas é um jogador para quem olhamos e sabemos que, mais tarde ou mais cedo, vai cair da equipa por falta de consistência. Corona, Óliver ou Otávio são nomes que poderiam ter emergido e sido importantíssimos nas últimas semanas, mas não conseguem agarrar-se à equipa. E, infelizmente, os reforços de inverno não estão a ter o impacto mais desejado. 

No Restelo, mais um exemplo de Lei de Murphy. Osorio fez a sua estreia no FC Porto, depois de Iván Marcano ter sido suspenso. E no momento em que estreamos um jogador, acaba por ser o colega do lado, Felipe, a borrar a pintura no Restelo: primeiro, no lance do 1x0, ao sair da sua posição para ir meter-se entre Osorio e Nathan, quando o venezuelano tinha o lance controlado; no 2x0, primeiro faz a falta, desnecessária, que dá origem ao livre, e em seguida há uma repartição de culpas. Maurides é o jogador mais forte a jogar de cabeça da Liga portuguesa. Então por que raio era Osorio, o estreante e um central frágil no jogo aéreo (ganhou apenas 55% dos lances que disputou na Liga - um central do FC Porto tem sempre que ter aproveitamento na casa dos 80-85%), que fez a perseguição direta a Maurides, enquanto Felipe ficou a marcar à zona, no mesmo sítio? Pequenos pormenores, mas que no fim fazem a diferença.


Tudo isto, mais tarde ou mais cedo, acaba por se fazer sentir. Esta equipa tem lutado muito, jornada após jornada. Teve momentos de qualidade, de superação, e não teve o aparo para se manter de pé quando tropeçou. Sim, não nos podemos esquecer que o Benfica deveria ter saído do Dragão a oito pontos. Isto não desculpa uma exibição pálida no Restelo, em que os jogadores podiam e deviam ter feito muito melhor, mas tudo conta no final. 

Recordamos mais uma passagem do referido post do mês de junho:

«Nenhum adepto sabe ainda se Sérgio Conceição vai jogar em 4x4x2 ou 4x2x3x1. Se vai jogar em posse, em transição rápida, se vai ser híbrido. Não é, até à data, um treinador que tenha diferenciado os clubes por onde passou com um estilo de jogo particularmente brilhante ou positivo. O Paços de Paulo Fonseca jogou melhor futebol que o Braga ou o Guimarães (apenas 8 vitórias em 2015-16) de Conceição, por exemplo. O que não é garantia de nada, mas que sugere uma coisa: o FC Porto não está, com Sérgio Conceição, a contratar um modelo ou uma ideia de jogo.»

O FC Porto, efetivamente, não contratou uma ideia de jogo com Sérgio Conceição. Foi o próprio treinador a moldar-se e a procurar a melhor fórmula para a equipa. A determinada altura, tudo estava a funcionar, numa estratégia que explorava acima de tudo os flancos e a profundidade dos avançados. Mas semana após semana, ia ficando a nota nos Machados: este era um modelo com limitações e que, mais tarde ou mais cedo, se tornaria excessivamente previsível. Assim foi.

Não existe jogo interior neste FC Porto. Zero. A equipa tornou-se excessivamente previsível e, no Restelo, só ensaiava dois movimentos: procurar que os laterais fossem projetados nas costas dos extremos para irem à linha, enquanto Brahimi/Ricardo atacariam o espaço interior; como isso não funcionou, os laterais acabavam quase sempre a cruzar a 3/4 do meio-campo, despejando bolas na grande área com pouco ou nenhum critério. Jogo interior, estratégia entre linhas? Zero. É a seis jornadas do final da época que vamos descobrir uma fórmula para meter o FC Porto a saber jogar por dentro? É agora que vamos recuperar o meio-campo a três e tentar meter alguém a pensar o jogo por dentro? 

Seja como for, isto vai de encontro às expetativas sobre o modelo tático de Sérgio Conceição:

«FC Porto não está, com Sérgio Conceição, a contratar um modelo ou uma ideia de jogo. Está, isso sim, a contratar sede de vencer e um homem que vai ao encontro das dificuldades, trocando o conforto pelo risco. Sérgio Conceição não é, provavelmente, a melhor escolha para treinador. Mas como homem, já começou a vencer pelo FC Porto: está disposto a queimar-se a ele próprio para tentar a reerguer o clube que aprendeu a respeitar e a amar».

E após tudo isto... o FC Porto continua a depender de si próprio para ser campeão. Mesmo sem ter conseguido ser, nas últimas semanas, uma equipa evoluída taticamente, a equipa continua de pé. Para trás já ficaram 28 jornadas com uma belíssima média de golos, um bom registo defensivo, goleadas, penáltis por marcar, minutos por dar, anti-jogo ao extremo de adversários e afins. Lesões, muitas lesões. A obrigatoriedade de mudar a equipa quase todas as semanas. 

E, depois de tudo isto, onde estamos? Com os objetivos na Liga dos Campeões cumpridos, em vantagem nas meias-finais da Taça de Portugal e na luta pelo título de campeão, numa época em que não foram reunidas, de base, condições para estarmos nesta luta. A SAD, na preparação para 2017-18, não fez nada. Zero. Engoliu o resultado da sua própria incompetência, foi dando a ilusão de luta/revolta meramente graças aos e-mails que fizeram chegar ao diretor de comunicação para ler (não fosse isto e provavelmente seria uma época a fio sem pestanejar perante o domínio do polvo, como foram exemplo predominante os últimos 4 anos) e ficou à espera que Sérgio Conceição fizesse milagres. E tem feito.

As derrotas em Paços de Ferreira e no Restelo foram um duríssimo golpe, mas a equipa continua de pé. A seis jornadas do final, depende de si própria. Ganhando ao Aves fica com a oportunidade de voltar para a liderança do Campeonato dentro de uma semana. Felipe, Brahimi ou Aboubakar já estiveram no melhor e no pior, e Sérgio Conceição por certo também já cometeu erros. Mas após todos estes meses de trabalho, entusiasmo, evolução, limitações e desilusão... a equipa continua de pé. 

Recordando uma frase do treinador na apresentação no FC Porto: «Não me apetece falar do passado. Quero olhar para o presente e para o futuro e nisso já estamos a trabalhar. O passado não me interessa». Pois bem. As últimas 28 jornadas, as derrotas em Paços de Ferreira e no Restelo, são passado. O presente e o futuro passam por vencer já hoje o Desportivo das Aves.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Dérbi q.b.

Não há momento algum da época em que os adeptos prefiram a exibição ao resultado - mas muito menos nesta altura. Foi uma performance q.b. do FC Porto, mas o suficiente para vencer um dérbi que prometia e que foi difícil. A pausa para as seleções é relativamente bem vinda, desde que ninguém regresse dos seus compromissos internacionais direto ao boletim clínico. 


Danilo Pereira e Alex Telles já deverão estar 100% recuperados dentro de duas semanas, tal como Soares, para a extremamente difícil visita ao Belenenses, num jogo que pode ser tão traiçoeiro quanto as visitas a Moreirense, Aves ou Paços de Ferreira. Também não há boas alturas para perder pontos, mas ninguém pode subestimar a importância de não voltar a escorregar antes da visita ao Benfica. 




Felipe (+) - Abriu o marcador com um belo cabeceamento (e um excelente cruzamento de Sérgio Oliveira) e cedo deu tranquilidade à equipa. Ao contrário do que é habitual, desta vez o brasileiro esteve melhor a distribuir do que Marcano e foi o melhor passador da equipa, com 86% de acerto no passe e 4/7 nos passes longos. Só perdeu um duelo em todo o jogo e não cometeu nenhuma falta. Esteve ainda perto de bisar, num jogo em que nenhum dos avançados do FC Porto fez um remate enquadrado com a baliza. Felipe bem tentou mostrar, lá à frente, como se faz.


Héctor Herrera (+) - Algo amarrado na primeira parte, um pouco à imagem da equipa, libertou-se no segundo tempo e melhorou imenso com a entrada de Óliver. Foi responsável por 3 dos 5 remates do FC Porto à baliza de Vágner e aproveitou uma oferta do guarda-redes para fazer o 2x0. Não esteve tão forte nos duelos individuais (ganhou 5 em 13), mas compensou com bom posicionamento e grande disponibilidade a preencher o meio-campo.

A entrada de Óliver (+) - Corona terminou a primeira parte a aquecer, continuou os exercícios durante o intervalo, mas três minutos depois do reatar da partida Sérgio Conceição decidiu lançar Óliver. Só o treinador saberá o que o fez mudar de opinião em tão curto espaço de tempo, mas a entrada de Óliver em campo reorganizou o FC Porto, que ganhou o meio-campo e conseguiu finalmente circular a bola. Óliver contribuiu com 85% de acerto, 5 em 6 passes longos corretos e ainda criou 2 situações de finalização - foi um dos jogos mais pobres da época do FC Porto neste capítulo, pois só Maxi (1), Ricardo (1) e Sérgio Oliveira (2) conseguiram passes para finalização. Tudo melhorou com o espanhol em campo.




Definição (-) - Mister, está na hora de tentar algo diferente quando a equipa chega perto da grande área. Este filme repetiu-se várias vezes: o portador da bola chega às imediações da grande área; faz um passe curto para trás e desmarca-se para as costas da defesa; o colega que recebe a bola tenta «picá-la» por cima do defesa, tentando isolar o colega; a defesa adversária corta o lance. Foi um movimento repetido vezes sem conta e que se tornou demasiado previsível, além de não ter funcionado. Não houve ousadia para o remate à entrada da grande área, o último passe não funcionou e a produtividade ofensiva foi perto de inexistente - Brahimi e Otávio nem remataram nem criaram situações de finalização, enquanto Aboubakar teve dois remates, ambos ao lado.

Nos últimos jogos, Sérgio Conceição tentou duas soluções diferentes para replicar o papel de Marega: um jogador rápido sobre a meia direita, a cair nas costas da defesa. Waris passou do 11 para a bancada, e Ricardo Pereira passou da lateral-direita para o ataque. Repare-se que, quando Danilo se lesionou, Sérgio Conceição não tentou encontrar um novo 6 - mudou a disposição do meio-campo e reposicionou Sérgio Oliveira e Herrera. Mas neste caso, apesar da lesão de Marega, Sérgio Conceição tentou encontrar em Ricardo a solução para o ataque. O português é ágil, rápido e mais habilidoso em ganhar a linha e cruzar do que Marega, mas não tem a dimensão física para «arrastar» a defesa e comer metros no terreno como o maliano.

Por outro lado, será mesmo essencial, numa equipa como o FC Porto, líder do Campeonato e com um dos melhores desempenhos (em termos pontuais e de finalização) dos últimos 30 anos, depender tanto de um jogador a cair nas costas da defesa? Não devia. Se não há espaço, tem que haver alternativa. Os adversários do FC Porto na I Liga jogam quase todos com linhas baixas. Chegámos ao ponto em que, a 3 metros da grande área, a equipa continuava a tentar procurar o espaço nas costas da defesa com bolas pelo ar. Não funciona. É necessário ter uma alternativa. Ter mais bola, saber criar o espaço através da circulação e não depender tanto do bicão para o lado direito. A equipa tem qualidade e soluções para isso. Por muito que o lado direito seja um problema, já todos sabem como é que o FC Porto vai jogar por aquele corredor. Há que surpreender para não ser... surpreendido.

terça-feira, 13 de março de 2018

O preço de Iker Casillas

«Só conseguimos equilibrar as coisas verdadeiramente quando os contratos terminarem. Por exemplo, o contrato com o Casillas termina no final deste ano. É um contrato muito elevado. Vamos pagar até ao fim religiosamente, não temos alternativa. Quando o contrato terminar, vamos logo ter uma folga de alguns milhões de euros anuais», Francisco Marques, citado pela Revista Sábado, 02/03/2018

«Quem não gostaria de continuar com Casillas? Estou muito feliz por o termos. Está a demonstrar que é realmente uma mais-valia para qualquer clube. Ficar? Gostaria que sim. Se é possível? Quando é possível ter mar em Bragança é tudo possível», Pinto da Costa, 06/03/2018

Iker Casillas está a caminho do 37ª aniversário. É raro, senão inédito, vermos um guardião com essa idade defender as balizas do FC Porto. O guardião espanhol já não está no seu auge, mas continua a ser uma garantia de qualidade, com um rendimento que o aproxima - mas que não supera, diga-se - os dois últimos guardiões indiscutíveis no FC Porto.

O FC Porto venceu 64,2% dos jogos que disputou com Casillas na baliza. Com Vítor Baía (67,3%) e Helton (68,5%) venceu um pouco mais. A média de golos sofridos também apresenta algumas diferenças, mas residuais: 0,72 para Iker Casillas, 0,7 para Hélton e 0,65 para Vítor Baía.

A maior diferença, claro está, reside no palmarés. Helton e Vítor Baía são duas referências pelos títulos que conquistaram. Já Iker Casillas continua com o currículo em branco na sua passagem por Portugal. Portanto, neste momento, a maior preocupação é mudar isso: ver o FC Porto regressar aos títulos, algo que leva até a que os adeptos «aceitem» que haja diversos jogadores já elegíveis para assinar por outros clubes a custo zero e outros que estão a nove meses de o poder fazer. 

Ainda assim, tendo em conta as duas declarações acima citadas, importa recordar uma questão em torno de Iker Casillas. Todos defendem que o espanhol é caro. Muito caro para a dimensão do campeonato português. E nesse caso sobra a pergunta: quando, exatamente, é que Iker Casillas passou a ser caro? 

Oportunidade para recordar estas declarações de Pinto da Costa, em julho de 2015, ao jornal O Jogo, aquando da chegada do guarda-redes. «Para nós, foi altamente competitivo em termos de preço. Ele, que foi considerado várias vezes o melhor do mundo, tem o melhor currículo, e com 34 anos pode jogar mais três ou quatro anos em grande nível, como aliás o Helton prova; ganha tanto como o Fabiano e o Andrés Fernández juntos. E eu pergunto o que qualquer clube do mundo preferirá: ter o Fabiano e o André Fernández ou ter o Casillas?». 

Ora, tendo em conta que Andrés Fernández já saiu e que Fabiano está, neste momento, meramente a fazer número no plantel, o que faltará para Iker Casillas renovar contrato? Apenas que Fabiano saia?

Podemos ainda acrescentar o factor Vaná, com um pouco de mistério à mistura. O FC Porto apresentou Vaná a 15 de julho, mas o R&C da SAD do primeiro semestre diz que o guarda-redes foi comprado ao Feirense apenas em agosto - um milhão de euros por 80% do passe. Vaná andou 15 dias - ou mais - a treinar-se com o FC Porto antes de ser comprado ao Feirense? Para quê tanta pressa por um jogador que nem nas Taças nacionais calçou? 


Lá está. O FC Porto não tinha muita disponibilidade para investir no mercado no verão. Mas no pouco que investiu, investiu onde não era prioritário ou sequer necessário.

No final da época, e pegando nas palavras anteriores de Pinto da Costa, talvez possa ser colocada a mesma questão: o que é mais caro? Ter Iker Casillas na baliza? Ou ter Fabiano e Vaná meramente a treinar no Olival? Um tema que pode esperar dois meses. Para já, mais importante, é ter Iker Casillas campeão em maio. Aliás, o FC Porto campeão.